Olhou o reflexo no espelho, passou a mão pelo cabelo, ajeitando algumas mexas, mas não todas. Pensou em cortar de novo... “Vai acabar parecendo um menino” dizia a mãe toda vez que mudava o corte e aparecia com eles mais curtos.
Olhos, boca e unhas pintadas. Um cigarro morria no cinzeiro enquanto decidia qual vestido por. O vermelho não. Nem o preto. Nem o azul... talvez devesse ir como estava: nua. Quem sabe assim ela não seria feita posse e descansaria nos braços que há tanto cobiçava?
Dylan no rádio cantava com a voz meio rouca “I want you. I want you. Yes, I want you so bad” confirmando aquela sensação que ela já conhecia... A de querer tanto algo.
Será que ele era cego mesmo? Ela já havia dado todos os sinais, feito todas as poses, distribuído todos os sorrisos e até pensara em usar as palavras, como ultima tentativa. Mas não. Sabia que se o fizesse ele fugiria na primeira oportunidade.
Daí ela não teria mais para quem se arrumar. Nem para quem pintar o cabelo, a boca, as unhas. Nem com quem sonhar ao se tocar. Nem quem culpar ao entristecer.
No radio a gaita tocava, embalando mais um devaneio. O espelho a encarou com os olhos arregalados, alertando-a sobre a hora. Se ela se atrasasse um pouco, ele se zangaria? Se se zangasse seria um bom sinal, pensou.
Acendeu mais um cigarro. Dylan ainda cantava sobre aquilo que queria tanto. Ficou ali se encarando procurando sua beleza. A encontrou. Se sentiu bonita e diferente. Uma beleza dela, só dela...

Como pode o outro te conhecer tanto?
ResponderExcluirBelo passeio de dentro para fora da personagem e fora para dentro, boas descrições que nos fazem torcer pelo sucesso da personagem (escolhe o vestido certo, moça!) Se inspirado ou não em alguém, tanto faz. É literário.
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