quarta-feira, 28 de março de 2012

A minha quinta história, Clarice.

Comecei assim: queixando-me de baratas. Como quem não quer nada, como quem não dá certeza ao que fala, mas continua dizendo e repetindo até que as palavras criem real sentido e o discurso se torne eloquente.
Na verdade a queixa nem era minha, assim como as baratas, que só passaram a ser minhas depois dessas primeiras histórias. E como tudo o que foi feito meu esses também desapareceram. 
As queixas pelo cansaço do diálogo. Repetidamente dizia a mim mesmo que elas estavam aqui, ali, lá e que precisava me livrar delas. Até que fui ouvido. E então veio a receita, o extermínio e as estatuas que desapareceram também.
Agora essa falta se faz presente. E é estranha. Como se ocupasse desajeitadamente o espaço da queixa e dos insetos. Deve ser o gesso me endurecendo o interior. Talvez sim, se a sensação doce de antes não existe mais, dando espaço ao incômodo, enquanto eu permaneço imóvel sem desejar ou entender.
Acho que se queixaram de mim, acho que me fiz inseto.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Inaptidão.


Essa mania de somente falar o que se sente ainda é nova para mim.
Tanto que as palavras vivem a formar bolos e nós em minha garganta. 
Acho que não estão habituadas a sair com tanta liberdade.
E se isso continuar assim eu posso me engasgar, sufocar e, talvez, até morrer.
Daí, quando perguntarem a causa da morte por favor respondam "morreu engasgado com as próprias verdades".

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Semear.



Há o que se planta e há o que se colhe.
Às vezes o que se planta na certeza se colhe no equívoco, cedo demais. Às vezes o que se colhe por acaso é o que se deseja, é aquilo que se foi plantado com descaso, aquilo que a sorte cultivou. Outras vezes o que se planta é tão desejado que morre antes mesmo de desabrochar, devido aos excessos. O destino também sabe águar as sementes, não é necessário pressioná-lo.
Há o que se planta e o que se colhe.
Semear é tão simples e tão dificil quanto parece. Há a dubiedade na terra e há a força da semente que somente os mais sábios compreendem. A fertilidade poder fazer florescer a raiva. Um oasis pode florescer no coração daqueles que se abandonam. Assim como sorrisos e desesperos, tudo nasce, cresce e morre.
Há o que se plantar e o que se colher.
Há que se viver plantando aquilo que se deseja colher. Mesmo que seja em outra vida, em outro tempo, por outras mãos.
                                                                       

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Sobre ela, só ela...

                                                    




Olhou o reflexo no espelho, passou a mão pelo cabelo, ajeitando algumas mexas, mas não todas. Pensou em cortar de novo... “Vai acabar parecendo um menino” dizia a mãe toda vez que mudava o corte e aparecia com eles mais curtos.
Olhos, boca e unhas pintadas. Um cigarro morria no cinzeiro enquanto decidia qual vestido por. O vermelho não. Nem o preto. Nem o azul... talvez devesse ir como estava: nua. Quem sabe assim ela não seria feita posse e descansaria nos braços que há tanto cobiçava?
Dylan no rádio cantava com a voz meio rouca “I want you. I want you. Yes, I want you so  bad”  confirmando aquela sensação que ela já conhecia... A de querer tanto algo.
Será que ele era cego mesmo?  Ela já havia dado todos os sinais, feito todas as poses, distribuído todos os sorrisos e até pensara em usar as palavras, como ultima tentativa. Mas não. Sabia que se o fizesse ele fugiria na primeira oportunidade.
Daí ela não teria mais para quem se arrumar. Nem para quem pintar o cabelo, a boca, as unhas. Nem com quem sonhar ao se tocar. Nem quem culpar ao entristecer.
No radio a gaita tocava, embalando mais um devaneio. O espelho a encarou com os olhos arregalados, alertando-a sobre a hora. Se ela se atrasasse um pouco, ele se zangaria? Se se zangasse seria um bom sinal, pensou.
Acendeu mais um cigarro. Dylan ainda cantava sobre aquilo que queria tanto. Ficou ali se encarando procurando sua beleza.  A encontrou. Se sentiu bonita e diferente. Uma beleza dela, só dela...